quinta-feira, 28 de outubro de 2010

"O Outro", João Tabarra, Fotografia a cores, 124 x 200 cm, 2010, Edição de 4 + 1 P.A

João Tabarra


“Les Limites du Désert”

Os limites do deserto são líquidos

O antropólogo americano Wade Davis[1] conta-nos a história de um inuit, da ilha de Baffin, que não queria trocar a sua vida de nómada pela vida de bairro sedentário que lhe era proposta. Ele não queria substituir os cães por motas, os iglos por casas pré-fabricadas, a caça por batatas fritas, pizza congelada e gomas coloridas, o casamento com o corvo pelas histórias da televisão. Isso para ele seria o deserto. Os outros homens quiseram atemorizá-lo. Disseram-lhe que ficaria sozinho, que iria ter frio. Mas o frio não lhe metia medo. A lógica que o animava era outra. Maior era o receio de que uma parte do mundo desaparecesse e com ele a sua integridade e a relação viva que mantinha com o espaço que habitava. Esperando convencê-lo a mudar de ideias, a sua família foi-se embora, levando atrás de si todos os instrumentos necessários à sobrevivência. O homem ficou sozinho. Não havia nada naquelas imensas paragens brancas a não ser alguns cães, que também já não eram necessários. Vista de fora, a situação parecia desesperante. No entanto, este homem percebeu que, afinal, tudo o que precisava estava ainda ali. Instalada a noite, o homem baixou as calças e defecou nas suas próprias mãos. Com as fezes que começavam a congelar, moldou uma faca. Com a saliva, afinou a lâmina e com esta matou um cão. Da caixa torácica do cão fez um trenó, e com a pele fez arreios que utilizou para prender o trenó a outro cão que por lá andava, e desapareceu no deserto gelado.

Esta história tilintava-me na mente enquanto João Tabarra me falava da sua exposição Les limites du désert. Não que com ela queira repetir o mito do artista que, solitário, avança contra um mundo que se instala. Mas porque ela nos conta o sentimento de um homem que decide intervir na história, não deixando que um mundo acabe porque um outro se quer impor no seu lugar. À beira do que poderia ser uma catástrofe pessoal, ele faz uso da criatividade, transformando o que lhe resta em instrumentos que lhe permitem continuar a viver. Ele sai da lógica ordinária que lhe aponta um caminho fora do qual a sobrevivência seria impossivel, construindo assim um outro sentido para a história. Não é por acaso que o espectador é recebido nesta exposição por um filme que mostra uma pedra que salta rente à superfície da água e cuja trajectória lógica, que a obrigaria a obedecer à força da gravidade, é suspensa.

A intervenção do sujeito no desenrolar da história é uma das facetas que Tabarra explora nesta exposição, embora o modo como escolheu dispor as imagens pareça dificultá-la. À excepção do filme já referido, os vários filmes aqui apresentados são projectados em sequência, separados somente pelos títulos de cada um. Sendo filmes independentes uns dos outros, existem linhas formais – que são também linhas de sentido – que tecem ligações entre eles. É através dessa continuidade que Tabarra constrói a sequência. Ele fá-lo de um modo que não obriga o espectador a seguir uma narrativa pré-determinada, pois não é com o auxílio de uma narrativa lógica que as imagens se encadeiam. A ligação é disjuntiva, ou seja, dessa ligação surgem qualidades, significados e experiências diferentes e dependentes do sujeito que a experimenta.

Uma tal montagem pede tempo ao espectador embora não o obrigue a nada. Não há nenhum momento pelo qual se deva começar ou acabar de ver este movimento circular e contínuo das imagens. O tempo pedido é o do espectador deixar o seu olhar se abrir para consumar a imagem, transformá-la num jogo de sentidos. Estes “trechos de experiência” organizados por Tabarra são agora restituídos à experiência, mas desta vez à do espectador, que irá organizá-la como quer ou como pode, criando ressonâncias entre as imagens dos diferentes filmes e as palavras que lhes servem de título ou de legenda.

Les limites du désert apresenta ainda duas fotografias. Numa delas, um homem aparece caído de um cavalo, suspenso ainda pelo estribo. Na outra, a mesma personagem segreda algo ao ouvido de outra personagem, igual à primeira mas adormecida no chão. Quantos mitos sobrevivem aqui? O da queda criadora mas nem por isso menos dolorosa; o do cavalo que nos transporta pela vida líquida, dita inconsciente, metamorfoseante, das pegadas do qual nascem fontes? O mito do encontro com o seu duplo e ao mesmo tempo, com a ferida que o fez nascer? Tabarra deixa-nos entender essa sobrevivência, mas não nos permite entrar no mito com facilidade, para que não caíamos na ilusão de confundir as suas figuras com a experiência concreta.

Nestas imagens, a escala das figuras não coincide com a escala da imagem. Entre o corpo do espectador e a figura, há um grande espaço branco e vazio. Não se trata de um passpartout, o qual tem a mesma função que o plinto e a moldura tiveram na história de arte: separar a experiência estética da experiência quotidiana. Este espaço branco, vazio, é ao mesmo tempo imagem e zona de experiência concreta. Ele anuncia um espaço de acção possível. Ele é a forma do tempo que Tabarra pede para que se chegue à figura. Para se perceber que as formas desta advêm de uma experiência humana cuja transmissão não se reduz às possibilidades da mera descrição factual.

Um corpo dorme e entra num estado no qual a consciência se altera e, pensam alguns, desaparece. Inconsciente, há um outro que lhe fala ao ouvido – um duplo, um outro de si mesmo? O inconsciente é uma máquina produtora, uma máquina desejante, escreveu Deleuze. E como máquina desejante ela estabelece ligações, mostra-nos os múltiplos que nos constituem, dirigindo-se e procurando também ligar-se a outros. As imagens, abrindo possibilidades de percepção e experiência, tornam-se assim espaços de exploração desse terreno erótico generalizado. A máscara, a queda, o duplo, o cavalo, o mar, o anjo, os caminhos, a água: todas estas figuras adquirem na obra de Tabarra um valor de símbolo. Não me refiro a símbolos de sentido único, mas de símbolos que são fábricas de sentido, imagens abertas a que se estabeleçam interacções sensíveis.

Tabarra refere-se aos filmes de Les limites du désert como sendo “fragmentos sensíveis”, mas o mesmo poderíamos dizer das suas fotografias. As suas imagens são formadas da matéria da experiência humana. Por isso ele próprio, à imagem do que aconteceu noutros momentos do seu trabalho, coloca-se em cena. Não se trata da Experiência Humana, de um homem universal, mas de uma experiência humana, de um homem concreto, dirigida a um espectador, também ele concreto. Essa experiência não é narrada ou descrita, mas transformada em instrumento que lhe permite estabelecer ligações com outras experiências concretas – e é assim que têm origem muitas ficções, mitos, e é também nessa interacção que podemos ser humanos. Volto a lembrar-me do homem-Inuit, mas também das palavras de Arendt, quando escreveu sobre os desertos, os oásis (“fontes que dispensam a vida, que nos permitem viver no deserto sem nos reconciliarmos com ele”) e a esperança. A esperança de que “nós, que não somos o produto do deserto mas que vivemos nele, estarmos à altura de transformar o deserto num mundo humano.”[2]

Liliana Coutinho



[1] http://www.commonwealthclub.org/archive/02/02-09davis-speech.html, consultado a 22 de Abril de 2010.

[2] A tradução é minha. Arendt, Hannah (texte établi par Ursuka Ludz), Qu’est-ce que la politique?, Points : Editions du Seuil, Paris, (1993)1995, p.187.