terça-feira, 29 de março de 2011


Retomar o corpo.


No início da passada década de noventa, José Pedro Croft abre um novo ciclo na sua obra, que se viria a transformar num desdobramento do seu trabalho. Tal como a escultura e o desenho, a gravura assume um espaço próprio na sua produção e acciona o desenvolvimento de um outro nível de relações, que lhe permite explorar um processo de trabalho em que a folha estampada é, num primeiro instante, a memória da topografia do espaço residente nos limites da matriz da gravura, a prancha, e, num segundo momento, o registo perene e visível da síntese dos procedimentos do autor na prática do desenho.

No ano de 2001, Croft realiza uma série de gravuras – que viria a editar no ano seguinte, sob a forma de um livro de originais acompanhado por poemas de Aurora Garcia – em que estabelece uma correspondência entre formas geométricas, em vermelho “monócromo”, e estruturas negras que representam sólidos simples, por vezes incompletos. Cada dupla página do livro constitui um par de gravuras e simultaneamente o índice das preocupações do autor: o peso, a densidade, a inevitável tensão entre o limite da folha e o seu centro, as transparências e os registos, e a persistente ultrapassagem do rigor geométrico, revelada pela sucessão de incisões, raspagens ou apagamentos. Aparentemente estamos em presença de uma pele e doesqueleto que a suporta, provocando uma relação ambígua no espaço amplificado da dupla folha. A oposição entre a abstracção dos planos, associada ao uso da cor, e as linhas estruturais das superfícies geométricas permite uma leitura sistemática das relações entre espaço aberto e fechado, que têm constituído um dos fios condutores da sua obra. Os sólidos que representa convocam uma prática escultórica marcada pelo confronto cheio/vazio, como uma metáfora da passagem da presença presença à ausência.

O trabalho realizado para o livro aqui referido veio a ter nos anos seguintes desdobramentos e desenvolvimentos que revelaram a invulgar capacidade que Croft tem de regressar a momentos anteriores do seu trabalho. Não se trata de rever alguma das opções que tomou ou de corrigir estratégias ligadas à sua metodologia de produção. Ao invés, o seu trabalho persegue uma lógica interna que já estava presente nas gravuras do livro. Cada uma delas é uma aproximação a uma possibilidade da representação e contém em si mesma uma sequência temporal, e assim serial. José Pedro Croft prossegue a sua prática artística como um movimento pendular que regula o seu trabalho mas cujo curso é imprevisível. À repetição do acto alia-se a capacidade de retomar a corporalidade do objecto, aparentemente terminado, para o reencontrar como matéria intocada.

As gravuras de pequeno formato têm a mesma matriz física, a mesma prancha, que deu origem às gravuras que constituíram o livro[1]. As gravuras de maior dimensão foram sujeitas ao mesmo processo. A uma primeira tiragem sucede uma outra, quase uma década depois, gerada a partir da mesma chapa, mantendo a mesma economia de meios, revelando um léxico mais rico e mais complexo. Ou seja, a natureza do múltiplo mantém a sua matriz e, ao contrário de ser anulada quando a série ou a edição está terminada, é reactivada como um work in progress.

Este acto volitivo do autor transfere o processo de trabalho, mediado pela exigência de começar uma nova etapa (uma nova prancha), para um modo contínuo, conferindo-lhe uma dimensão auto-reflexiva sujeita a um acto consciente de regresso a si mesmo. De voltar a olhar para o processo de trabalho, reafirmando em cada nova acção sobre o suporte um gesto que caracteriza uma atitude experimentalista, e por isso mesmo radical.

O resultado propõe-nos uma grelha complexa que escapa à variação sobre um tema e nos faz vacilar entre a memória da acção do corpo e hipotéticas, senão mesmo utópicas, manchas arquitectónicas, por vezes próximas da abstracção. Esta dupla presença tende a desestabilizar o nosso estado de vigília, no sentido de que o que é reconhecível neste processo não se encontra ao lado para ser comparado mas no interior, na profundidade, de cada uma das imagens gravadas, como se fosse possível percorrê-las ou sentir-lhes o peso.

A observação desta nova série de gravuras denuncia uma outra aproximação à composição, que se traduz na tensão que parece distender os limites da folha e se torna mais intrigante quando a imagem estampada ocupa toda a gravura. O autor regressa aos procedimentos do desenho, conquistando a folha pela subtracção da margem e afastando-se, quando necessário, do formato tradicional, que inclui a margem branca destinada à sua ordenação serial.

Cada uma das pranchas é sujeita a intervenções que transmutam a forma representada, chegando a mudar o seu eixo de orientação em relação às primeiras provas, realizadas no início desta década. Vêem-se planos submersos na cor, rastos de gestos anteriores, incisões, marcações e, deste modo, determinações do espaço que se constituem como um subtexto pré-existente que exprime até ao limite a exigência do labor do artista e da oficina que dá a gravura à estampa.

Mas é o pensamento do escultor que reside no processo de trabalho e presentifica a relação entre pensar e fazer, sem perder de vista a experiência do corpo na relação sensorial com o espaço como suporte e lugar do desenho. Esta relação é independente do formato, da escala, ou mesmo da austera aplicação da cor, que pode conhecer combinações mais subtis, como a junção do azul e do preto nalgumas gravuras. Esta acção retoma o questionamento da densidade da matéria, do peso dos materiais ou da sua leveza, sensação ambígua que o autor explorou desde cedo na escultura[2].

Estas gravuras actualizam no trabalho de José Pedro Croft uma marcação temporal que ultrapassa o que é transitório e fugaz. A sua presença requer do espectador uma total disponibilidade, porque necessita do seu corpo para o percorrer e dos seus mecanismos da percepção para o incorporar.

João Silvério

Agosto 2010



[1] As gravuras, tanto as da série que deu origem ao livro como as de maior formato, que estão na base das séries agora apresentadas, foram expostas na retrospectiva do autor no Centro Cultural de Belém em 2002 (conforme o catálogo José Pedro Croft 1979 – 2002 Retrospectiva, Ed. Centro Cultural de Belém, Lisboa) e mais recentemente na exposição José Pedro Croft gravura, realizada na Academia das Artes dos Açores em 2009 (reproduzidas no catálogo editado).

[2] Refiro-me aqui às esculturas fundidas em bronze e pintadas de branco, como se se tratassem de esculturas num material leve (gesso) e aparentemente frágil. E também às esculturas de parede em fibra de vidro que o autor produziu entre a dácada de oitenta a meados da década de noventa do séc. XX.

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